quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

PORTUGAL-GEÓRGIA, MAIS DO QUE O JOGO DO ANO

O JOGO DO PRÓXIMO SÁBADO É MUITO MAIS DO QUE O JOGO MAIS IMPORTANTE DO ANO, já que não estará em cima da mesa apenas a possibilidade de Portugal se tornar campeão da Europa de XV pela segunda vez na história, mas também por outras importantes questões.

Depois dos êxitos conseguidos frente à Roménia e à Rússia, em dois jogos que tiveram uma movimentação pouco habitual nesta divisão da Europa, e atrevo-me mesmo a dizer – tendo bem presentes as enormes diferenças entre os níveis do rugby praticado – em toda a Europa, não importa apenas ganhar, é necessário saber se a nova atitude e capacidade demonstrada por uma equipa basicamente constituída por jogadores com muitos anos de experiência, e que beneficiaram de todo um processo de evolução e maturação que foi conduzido por Tomás Morais na última década, foi fruto de factos meramente circunstanciais, ou se representa uma revolução no nível mais alto do rugby nacional.

Ou seja, será esta equipa capaz de manter os níveis que alcançou nos dois jogos anteriores, apresentando-se de uma forma consistente e com capacidade para discutir o resultado até ao apito final?

Assistimos ao vivo ao jogo com a Roménia e tivemos oportunidade de analisar com cuidado o vídeo integral do jogo com a Rússia, e o primeiro facto que importa salientar diz respeito ao ritmo do jogo, com a bola quase sempre viva, e com as equipas tentando criar situações sucessivas de ataque, a que as outras responderam com um quase constante reposicionamento defensivo que dificultou a obtenção de pontos por ensaio – e marcou mais quem melhor aproveitou os deslizes das defesas.

Nestas circunstâncias alguns erros defensivos acabaram por se tornar mais evidentes, mas se compararmos a percentagem de sucesso defensivo, com outros jogos de anos anteriores, podemos afirmar sem risco de engano, que tendo havido mais movimentos atacantes, houve, consequentemente, mais capacidade defensiva, já que o número de ensaios sofridos foi semelhante ao que aconteceu no passado (quatro este ano, contra três no ano passado, com os mesmos adversários).

Ou seja, cada vez mais os erros defensivos, mesmo depois de muita e melhor defesa, são geralmente castigados com a obtenção de pontos pelo adversário.

Os Lobos demonstraram que estão muito melhores a defender, quer através das suas linhas atrasadas, quer através do alargamento do raio de ação dos seus avançados, e também não restam dúvidas que o rendimento ofensivo mais que duplicou (!) já que a atacar conseguimos mais e melhor que no passado, marcando cinco ensaios nos dois jogos, quando no ano anterior apenas conseguimos dois, e esse é um crédito que tem que ser dado aos actuais técnicos e jogadores.

Por outro lado em relação às linhas atrasadas, não raro se tornou difícil distinguir entre um dos seus elementos e um elemento do pack avançado, quer pela sua presença física, quer pela agressividade com que enfrentaram as situações.

E quando falamos de “defesa” estamos a incluir as situações de disputa ou recuperação de bola nas formações espontâneas, com os nossos três quartos a desenvolverem movimentos que até agora, em Portugal, apenas víamos acontecer com os oito da frente.

Quanto aos oito da frente, a capacidade atlética do seu conjunto foi o que mais impressionou, em especial por se ter transformado o conceito de eficácia nas formações ordenadas e alinhamentos, por um conceito global de competência e mobilidade que muito nos agradou.

Não vamos fazer nenhuma referência individual, mas a verdade é que os nossos avançados cobriram quase sempre, quase todo o terreno, e pela primeira vez, em dois jogos seguidos contra dois adversários de grande valor – há quem desdenhe afirmando que Roménia e Rússia não se apresentaram com a sua melhor equipa, são tretas, os Lobos simplesmente não os deixaram jogar! – com uma ou duas excepções absolutamente esporádicas, ou fomos superiores ou, pelo menos, não fomos dominados.

Não pretendemos aqui fazer uma análise exaustiva do que se passou nos jogos anteriores, mas não podíamos deixar de prestar justiça à evolução que se viu e sentiu na equipa conduzida por Errol Brain e Frederico Sousa.

No entanto, nem tudo o que se disse anteriormente quer dizer que tudo correu bem.

Na verdade subsistem algumas dúvidas que tememos se possam transformar em nuvens mais ou menos negras, e apesar dos sucessos que tanto nos satisfazem não podemos embarcar na simples e fácil via do elogio, para com isso cairmos nas graças de uns ou de outros.

Apesar da melhoria global do grupo dos 24 jogadores já utilizados, e de sentirmos que uma pontual troca de um avançado pode não afetar a equipa, a sensação que ficou dos jogos realizados foi que as soluções portuguesas se esgotam neste lote de jogadores, eventualmente em mais um ou dois.

E tanto mais assim é, que a situação perigosa que vivemos no que diz respeito aos nossos médios de formação, ganha contornos de difícil compreensão.

Mas vamos por partes: será que o jogador que tem sido utilizado como segundo médio de formação não tem competência para o lugar? Nada disso.

O que se passa é que a movimentação de lugares que a troca de médios implica torna a nossa equipa objectivamente mais frágil, menos capaz de articular a sua movimentação, quer defensiva, quer ofensiva.

Quer isto dizer que os jogadores que tem entrado na equipa não são suficientemente bons para o lugar? Nada disso, eles apenas precisam de tempo para que se possa deles tirar tudo o que se deve tirar a este nível, e quando para trocar de médio de formação a equipa se vê obrigada a trocar de defesa e de um ponta, o risco de erro aumenta e os adversários têm aproveitado para se aproximar perigosamente de nós.

Por outro lado são óbvias as diferenças entre o estilo dos dois médios de formação utilizados, e se um empurra os seus avançados para extremos de exigência que os pode conduzir à exaustão, a verdade é que o outro, sendo embora um grande distribuidor de jogos, à mão ou ao pé, não consegue manter os níveis de agressividade dos oito da frente, com o conseqüente abaixamento no rendimento global da equipa.

E na nossa opinião, a verdadeira razão do sucesso desta equipa reside nos altos níveis de agressividade, defensiva e ofensiva, a que os nossos adversários não estão habituados, e se mantivermos esses níveis durante os 80 minutos contra a Geórgia, então será possível reverter uma linha de resultados que não nos é favorável desde 5 de Fevereiro de 2005.

Em resumo, achamos que o médio de formação dos Lobos é o calcanhar de Aquiles de Portugal, mesmo tendo dois excelentes intérpretes, e mesmo que as nossas linhas atrasadas, no seu todo, sejam o melhor conjunto do Campeonato da Europa.

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Um comentário:

  1. Já alguém percebeu as verdadeiras razões do afastamento do Emmanuel Rebelo depois das boas indicações deixadas na janela de Novembro de 2009?

    Situação profissional / Clube que não o deixa vir / Falta de motivação / Outra...???

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